segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Populismo – não podemos ignorar!

É importante compreender o fenómeno político designado de populismo porque este é de momento uma ameaça a valores que nos habituamos a prezar. Para compreender temos de construir uma teoria sobre o que é, quais as suas causas quais as suas consequências previsíveis.

 É simultaneamente uma estratégia para tomar o poder e é um projeto político, conjunto de propostas a implementar uma vez alcançado o poder, o populismo pode falar em democracia, mas o seu entendimento da democracia é antidemocrático porque o seu objetivo não é vencer, através da argumentação e da persuasão o adversários/imigos políticos é elimina-los, tirando-lhes a voz e se necessário a vida. Portanto não defende a liberdade individual, como o liberalismo, e o seu entendimento do demos é antidemocrático porque para ele a função do povo não é decidir nem participar nas decisões é identificar-se e seguir o líder. O líder concentra toda a representatividade política possível, a democracia liberal ainda aceitava o processo representativo embora saibamos das fragilidades dessa representação, mas aqui a máscara cai.  


sábado, 10 de dezembro de 2022

 

Democracia liberal e capitalismo – gato escondido com o rabo de fora…

A democracia liberal na fase do neoliberalismo, que é aquela em que, no dealbar desta terceira década do seculo XXI, nos encontramos, atravessa uma crise profunda e sofre ataques persistentes de partidos de extrema direita aos quais, tudo leva a crer, vai ter de acabar por se render, aceitando-os pelo menos como pares na governação.

É certo que entre a extrema direita populista, conservadora e tradicionalista e a ideologia liberal que enforma as democracias liberais, as divergências são profundas, mas nada que não seja ultrapassável se, para salvar os dedos, for preciso perder os anéis.

As críticas que o populismo faz à democracia liberal são pertinentes e justas mas tem um pequeno senão é que falham o alvo: dirigidas aos políticos esquecem que estes são uma espécie de marionetes manipuladas pelas elites capitalistas de acordo com os interesses destas, ou corrompidas, quando tal se mostra necessário; e há formas muito subtis de corromper: lembremos como é frequente certas personagens politicas, findo o mandato, transitarem para altos cargos em instituições financeiras privadas, ou outro tipo de posições extremamente bem remunerados e nunca mais ouvimos falar delas, ficam a operar na sombra do sistema enquanto os políticos ocupam o palco.

Esta foi porventura a principal façanha do capitalismo - uma espécie de operação mãos limpas - conseguir que o ódio fique com os políticos, que as populações os detestem e ignorem que afinal a culpa das coisas correrem mal é do sistema capitalista, não dos políticos, não da democracia liberal; ou melhor, só é da democracia liberal porque esta se esquece de ser democracia e a sua liberalidade é tao simplesmente a que convém ao capitalismo: liberalidade no mercado, na ausência de regulamentação,  na não interferência do estado nos negócios, na isenção de impostos aos ricos com o justificativo de que essas medidas  não permitem o desenvolvimento da economia e a criação de empregos, etc., e a maioria das pessoas pura e simplesmente não percebe que está a ser ludibriada.

Seria de esperar que as esquerdas denunciassem esta situação, fizessem pelo menos pedagogia, e não slogans de que todos estamos cansados, mas até parece que elas próprias não têm a cultura política necessária para desmontar e desmistificar este processo.

Como o processo não é desmistificado, o populismo pode navegar a vontade, persuadindo amplos setores da sociedade de que as elites se estão nas tintas para o povo - e estão de facto - e de que o melhor será entregarem os seus destinos a líderes providenciais que pelo menos olharão paternalmente por eles. Desse modo não percebem que afinal o populismo - que vão apoiar - não combate o sistema capitalista, só combate a democracia da qual este pode prescindir ou mesmo ter necessidade de prescindir, atendendo às medidas predatórias que pretende impor ao trabalho para continuar o processo da chamada acumulação primitiva. O capitalismo pode em certo momento perceber a democracia como um empecilho de que será necessário desfazer-se, mesmo às custas de certas flores na lapela como as liberdades individuais, desde que não se toque no direito de propriedade e se mantenha uma farsa de igualdade política. Neste particular, o que se tem passado ultimamente no Brasil é sintomático desta situação bizarra, desta encruzilhada em que o capitalismo contemporâneo se encontra: pactuar com o fascismo ou enfrentar o descontentamento das populações, que pode ser violento.

Por outro lado, a extrema direita é nacionalista e o capitalismo é globalista, mas paradoxalmente o nacionalismo até ajuda porque cria um clima propício ao ódio entre nações, leva a ver o outro como inimigo porque diferente e assim quando há guerras a primeira vitima é a capacidade crítica com a ascensão do comportamento  de rebanho e os próprios trabalhores colocam toda a sua energia não contra os patrões, mas afinal, veja-se o absurdo, contra outros trabalhadores (de outras nações). De facto, tudo o que ajuda a criar bodes expiatórios, em simultâneo ajuda o povo a ignorar  os seus verdadeiros inimigos.

Ainda acontece que a extrema direita é tendencialmente conservadora nos valores e não vê com bons olhos a tolerância em relaçao a novas formas de família, a avanços nos direitos das mulheres, veja se, por exemplo, a reversão do direito ao aborto nos Estados Unidos e outras pérolas de misoginia disfarçadas com a defesa do valor vida, tao desprezado no concreto e nos mais variados contextos. .Mas paciência, não se pode ter tudo, sacrifique-se o que for preciso para se manter o essencial. 

Resumindo, pode dizer-se que aos analistas políticos, mesmo aos sectores da esquerda, tem escapado a perceção de que a crise da democracia liberal decorre da contradição entre democracia liberal e capitalismo que se encontra instalada desde os seus primórdios; assim, a seu tempo, foi possível detetar as debilidades da democracia e atacá-la, deixando-se todavia intacto o sistema capitalista a que esta desde sempre tem estado atrelada – quer dizer, neste caso, deita-se fora apenas a água do banho, o bebé continua bem protegido…

 

 

sábado, 22 de outubro de 2022

O populismo na era digital - um novo fôlego

O populismo é um movimento político que embora tornado possível pela democracia liberal se posiciona contra esta podendo vir a derrubá-la e a instaurar um novo regime de contornos fascistas. Para procurarmos entender este fenómeno, relembremos que os princípios mais acarinhados pela democracia liberal são:

  • A divisão do poder (divisão tripartida dos poderes), uma espécie de estratégia para introduzir equilíbrio na sociedade - a estratégia dos ‘pesos e contrapesos’.
  • A proteção das minorias - às quais reconhece vulnerabilidades a que é justo atender;
  • A aceitação do pluralismo das opiniões – numa ótica de valorização da tolerância;
  • A defesa do princípio da soberania popular –a ideia de que o poder emana do povo.

Tudo princípios no mínimo respeitáveis que não se podem descartar - pensa-se - sem uma boa argumentação. Mas o populismo vai rejeitá-los, e não se vai dar ao trabalho de argumentar, pois pensa, se calhar bem, que não vale a pena. Todavia, destes princípios retém um – o da soberania popular - e vai elaborá-lo de acordo com os seus objetivos, redefinindo-o em termos que o tornam quase irreconhecível. Essa redefinição assume uma vertente processual e uma vertente substantiva:

·         Em termos processuais, pretende que o povo pode dispensar intermediários e entrar em relação direta com um líder que ‘encarna’ os seus anseios e ao qual devota uma fidelidade canina.

·         Em termos substantivos, o povo demite-se de pensar e de discutir a autoridade do líder, já que este aparece revestido da mística de homem providencial que ama incondicionalmente, por quem vive e por quem é capaz de dar a vida.

Como estratégia, o populismo para se alimentar e justificar, procura desacreditar os políticos – representantes do povo nas democracias liberais- e apresenta-se como antissistema personificado por líderes que não se reveem na imagem das elites tradicionais, que falam e pensam ‘fora da caixa’ e que se apresentam como os únicos e verdadeiros representantes do povo.

Agora, há uma diferença entre os líderes populistas de outrora e os atuais. Em tempos passados, os líderes providenciais apresentavam-se com um carisma que lhes conferia uma aura de excecionalidade, lembremos os casos paradigmáticos de Hitler e de Mussolini. Hoje na era digital não se é tão exigente. Em boa verdade, normalmente nem precisam de aparecer, basta ‘twittarem’ e terem excelentes técnicos de comunicação digital para fazer passar as suas mensagens que serão replicadas ad nauseam, aprovadas e endossadas, se for preciso por milhares de perfis falsos, que condicionam os perfis verdadeiros, acolitados pelas fake news consideradas oportunas.

Para alem desta mestria tecnológica há um outro aspeto que não se pode ignorar, como refere Letícia Cesarino em entrevista recente1:

“[com a internet] no lugar dos mediadores tradicionais, da imprensa, dos partidos políticos, da academia, você coloca a proeminência de quem estava na margem, que é o usuário comum, o senso comum, porque é uma tecnologia baseada em conteúdo gerado pelos usuários.”

Quer dizer, através das redes sociais ‘o povo’ - os participantes/usuários - tem a falsa sensação de que é protagonista da cena política e não simples recetor, como acontece nos cenários políticos tradicionais e desse modo, a sua adesão ao líder reveste outro sentido e outra força.

Quanto às aparições físicas públicas do líder serão cuidadosamente encenadas para se obter o efeito desejado pois as pessoas parecem ser cada vez mais sensíveis à imagem e é preciso saber imprimir-lhe um qualquer cunho estético. A boa maneira neoliberal o populismo sabe como vender o produto, sendo neste caso o produto o líder e a sua ‘entourage’.

Por outro lado - não esqueçamos que o meio é mensagem - o modo como as novas tecnologias mimetizam a política vai realçar certos aspetos do discurso em detrimento de outros; assim a racionalidade e a argumentação tenderão a dar lugar às emoções e a formas de expressão mais espetaculares (no bom ou no mau sentido da palavra) porque as pessoas não sentem a presença dos filtros que as mediações tradicionais costumam interpor entre o que se pensa e o que se diz.

As novas tecnologias da comunicação são os novos media e nós – a esquerda tradicional - ainda não nos apercebemos das suas reais implicações. Estes novos media em princípio pela sua estrutura intrínseca favorecem o populismo: são para os políticos populistas uma espécie de “mare nostrum” no qual em minha opinião os políticos que se pretendem progressistas têm de aprender a navegar o mais rápido possível se não querem perder definitivamente a parada.  

Tudo isto para dizer e convencer quem me lê de que é urgente começar-se a pensar a sério em estudar esta media alternativa, perceber como funciona e como pode ser usada, a fim de se veicularem ideias progressistas e libertárias para além do lixo do costume.

1Leticia Cesarino em entrevista à Instituto Humanitas Unisinos, em 19/10/2022


 

O populismo na era digital - um novo fôlego

O populismo é um movimento político que embora tornado possível pela democracia liberal se posiciona contra esta podendo vir a derrubá-la e a instaurar um novo regime de contornos fascistas. Para procurarmos entender este fenómeno, relembremos que os princípios mais acarinhados pela democracia liberal são:

  • A divisão do poder (divisão tripartida dos poderes), uma espécie de estratégia para introduzir equilíbrio na sociedade - a estratégia dos ‘pesos e contrapesos’.
  • A proteção das minorias - às quais reconhece vulnerabilidades a que é justo atender;
  • A aceitação do pluralismo das opiniões – numa ótica de valorização da tolerância;
  • A defesa do princípio da soberania popular –a ideia de que o poder emana do povo.

Tudo princípios no mínimo respeitáveis que não se podem descartar - pensa-se - sem uma boa argumentação. Mas o populismo vai rejeitá-los, e não se vai dar ao trabalho de argumentar, pois pensa, se calhar bem, que não vale a pena. Todavia, destes princípios retém um – o da soberania popular - e vai elaborá-lo de acordo com os seus objetivos, redefinindo-o em termos que o tornam quase irreconhecível. Essa redefinição assume uma vertente processual e uma vertente substantiva:

·         Em termos processuais, pretende que o povo pode dispensar intermediários e entrar em relação direta com um líder que ‘encarna’ os seus anseios e ao qual devota uma fidelidade canina.

·         Em termos substantivos, o povo demite-se de pensar e de discutir a autoridade do líder, já que este aparece revestido da mística de homem providencial que ama incondicionalmente, por quem vive e por quem é capaz de dar a vida.

Como estratégia, o populismo para se alimentar e justificar, procura desacreditar os políticos – representantes do povo nas democracias liberais- e apresenta-se como antissistema personificado por líderes que não se reveem na imagem das elites tradicionais, que falam e pensam ‘fora da caixa’ e que se apresentam como os únicos e verdadeiros representantes do povo.

Agora, há uma diferença entre os líderes populistas de outrora e os atuais. Em tempos passados, os líderes providenciais apresentavam-se com um carisma que lhes conferia uma aura de excecionalidade, lembremos os casos paradigmáticos de Hitler e de Mussolini. Hoje na era digital não se é tão exigente. Em boa verdade, normalmente nem precisam de aparecer, basta ‘twittarem’ e terem excelentes técnicos de comunicação digital para fazer passar as suas mensagens que serão replicadas ad nauseam, aprovadas e endossadas, se for preciso por milhares de perfis falsos, que condicionam os perfis verdadeiros, acolitados pelas fake news consideradas oportunas.

Para alem desta mestria tecnológica há um outro aspeto que não se pode ignorar, como refere Letícia Cesarino em entrevista recente1:

“[com a internet] no lugar dos mediadores tradicionais, da imprensa, dos partidos políticos, da academia, você coloca a proeminência de quem estava na margem, que é o usuário comum, o senso comum, porque é uma tecnologia baseada em conteúdo gerado pelos usuários.”

Quer dizer, através das redes sociais ‘o povo’ - os participantes/usuários - tem a falsa sensação de que é protagonista da cena política e não simples recetor, como acontece nos cenários políticos tradicionais e desse modo, a sua adesão ao líder tem outro sentido e outra força.

Quanto às aparições físicas públicas do líder serão cuidadosamente encenadas para se obter o efeito desejado pois as pessoas parecem ser cada vez mais sensíveis à imagem e é preciso saber imprimir-lhe um qualquer cunho estético. A boa maneira neoliberal o populismo sabe como vender o produto, sendo neste caso o produto o líder e a sua ‘entourage’.

Por outro lado - não esqueçamos que o meio é mensagem - o modo como as novas tecnologias mimetizam a política vai realçar certos aspetos do discurso em detrimento de outros; assim a racionalidade e a argumentação tenderão a dar lugar às emoções e a formas de expressão mais espetaculares (no bom ou no mau sentido da palavra) porque as pessoas não sentem a presença dos filtros que as mediações tradicionais costumam interpor entre o que se pensa e o que se diz.

As novas tecnologias da comunicação são os novos media e nós – a esquerda tradicional - ainda não nos apercebemos das suas reais implicações. Estes novos media em princípio pela sua estrutura intrínseca favorecem o populismo: são para os políticos populistas uma espécie de “mare nostrum” no qual em minha opinião os políticos que se pretendem progressistas têm de aprender a navegar o mais rápido possível se não querem perder definitivamente a parada.  

Tudo isto para dizer e convencer quem me lê de que é urgente começar-se a pensar a sério em estudar esta media alternativa, perceber como funciona e como pode ser usada, a fim de se veicularem ideias progressistas e libertárias para além do lixo do costume.

1Leticia Cesarino em entrevista à Instituto Humanitas Unisinos, em 19/10/2022

domingo, 25 de setembro de 2022

Populismo – não podemos ignorar! É importante compreender o fenómeno político designado de populismo porque este é de momento uma ameaça a...