O
populismo na era digital - um novo fôlego
O populismo é um movimento político que
embora tornado possível pela democracia liberal se posiciona contra esta
podendo vir a derrubá-la e a instaurar um novo regime de contornos fascistas. Para
procurarmos entender este fenómeno, relembremos que os princípios mais
acarinhados pela democracia liberal são:
- A divisão do poder (divisão tripartida dos
poderes), uma espécie de estratégia para introduzir equilíbrio na
sociedade - a estratégia dos ‘pesos e contrapesos’.
- A proteção das minorias - às quais reconhece
vulnerabilidades a que é justo atender;
- A aceitação do pluralismo das opiniões – numa
ótica de valorização da tolerância;
- A defesa do princípio da soberania popular –a
ideia de que o poder emana do povo.
Tudo princípios no mínimo respeitáveis
que não se podem descartar - pensa-se - sem uma boa argumentação. Mas o
populismo vai rejeitá-los, e não se vai dar ao trabalho de argumentar, pois
pensa, se calhar bem, que não vale a pena. Todavia, destes princípios retém um
– o da soberania popular - e vai elaborá-lo de acordo com os seus objetivos, redefinindo-o
em termos que o tornam quase irreconhecível. Essa redefinição assume uma
vertente processual e uma vertente substantiva:
·
Em
termos processuais, pretende que o povo pode dispensar intermediários e entrar
em relação direta com um líder que ‘encarna’ os seus anseios e ao qual devota
uma fidelidade canina.
·
Em
termos substantivos, o povo demite-se de pensar e de discutir a autoridade do
líder, já que este aparece revestido da mística de homem providencial que ama
incondicionalmente, por quem vive e por quem é capaz de dar a vida.
Como estratégia, o populismo para se
alimentar e justificar, procura desacreditar os políticos – representantes do
povo nas democracias liberais- e apresenta-se como antissistema personificado por
líderes que não se reveem na imagem das elites tradicionais, que falam e pensam
‘fora da caixa’ e que se apresentam como os únicos e verdadeiros representantes
do povo.
Agora, há uma diferença entre os líderes
populistas de outrora e os atuais. Em tempos passados, os líderes providenciais
apresentavam-se com um carisma que lhes conferia uma aura de excecionalidade,
lembremos os casos paradigmáticos de Hitler e de Mussolini. Hoje na era digital
não se é tão exigente. Em boa verdade, normalmente nem precisam de aparecer,
basta ‘twittarem’ e terem excelentes técnicos de comunicação digital para fazer
passar as suas mensagens que serão replicadas ad nauseam, aprovadas e
endossadas, se for preciso por milhares de perfis falsos, que condicionam os perfis
verdadeiros, acolitados pelas fake news consideradas oportunas.
Para alem desta mestria tecnológica há
um outro aspeto que não se pode ignorar, como refere Letícia Cesarino em entrevista
recente1:
“[com a internet] no lugar dos
mediadores tradicionais, da imprensa, dos partidos políticos, da academia, você
coloca a proeminência de quem estava na margem, que é o usuário comum, o senso
comum, porque é uma tecnologia baseada em conteúdo gerado pelos usuários.”
Quer dizer, através das redes sociais ‘o
povo’ - os participantes/usuários - tem a falsa sensação de que é protagonista
da cena política e não simples recetor, como acontece nos cenários políticos
tradicionais e desse modo, a sua adesão ao líder reveste outro sentido e outra
força.
Quanto às aparições físicas públicas do
líder serão cuidadosamente encenadas para se obter o efeito desejado pois as
pessoas parecem ser cada vez mais sensíveis à imagem e é preciso saber
imprimir-lhe um qualquer cunho estético. A boa maneira neoliberal o populismo
sabe como vender o produto, sendo neste caso o produto o líder e a sua
‘entourage’.
Por outro lado - não esqueçamos que o meio
é mensagem - o modo como as novas tecnologias mimetizam a política vai realçar certos
aspetos do discurso em detrimento de outros; assim a racionalidade e a argumentação
tenderão a dar lugar às emoções e a formas de expressão mais espetaculares (no
bom ou no mau sentido da palavra) porque as pessoas não sentem a presença dos filtros
que as mediações tradicionais costumam interpor entre o que se pensa e o que se
diz.
As novas tecnologias da comunicação são os
novos media e nós – a esquerda tradicional - ainda não nos apercebemos das suas
reais implicações. Estes novos media em princípio pela sua estrutura intrínseca
favorecem o populismo: são para os políticos populistas uma espécie de “mare nostrum”
no qual em minha opinião os políticos que se pretendem progressistas têm de
aprender a navegar o mais rápido possível se não querem perder definitivamente
a parada.
Tudo isto para dizer e convencer quem me
lê de que é urgente começar-se a pensar a sério em estudar esta media
alternativa, perceber como funciona e como pode ser usada, a fim de se veicularem
ideias progressistas e libertárias para além do lixo do costume.
1Leticia Cesarino em entrevista à Instituto Humanitas
Unisinos, em 19/10/2022