sábado, 22 de outubro de 2022

O populismo na era digital - um novo fôlego

O populismo é um movimento político que embora tornado possível pela democracia liberal se posiciona contra esta podendo vir a derrubá-la e a instaurar um novo regime de contornos fascistas. Para procurarmos entender este fenómeno, relembremos que os princípios mais acarinhados pela democracia liberal são:

  • A divisão do poder (divisão tripartida dos poderes), uma espécie de estratégia para introduzir equilíbrio na sociedade - a estratégia dos ‘pesos e contrapesos’.
  • A proteção das minorias - às quais reconhece vulnerabilidades a que é justo atender;
  • A aceitação do pluralismo das opiniões – numa ótica de valorização da tolerância;
  • A defesa do princípio da soberania popular –a ideia de que o poder emana do povo.

Tudo princípios no mínimo respeitáveis que não se podem descartar - pensa-se - sem uma boa argumentação. Mas o populismo vai rejeitá-los, e não se vai dar ao trabalho de argumentar, pois pensa, se calhar bem, que não vale a pena. Todavia, destes princípios retém um – o da soberania popular - e vai elaborá-lo de acordo com os seus objetivos, redefinindo-o em termos que o tornam quase irreconhecível. Essa redefinição assume uma vertente processual e uma vertente substantiva:

·         Em termos processuais, pretende que o povo pode dispensar intermediários e entrar em relação direta com um líder que ‘encarna’ os seus anseios e ao qual devota uma fidelidade canina.

·         Em termos substantivos, o povo demite-se de pensar e de discutir a autoridade do líder, já que este aparece revestido da mística de homem providencial que ama incondicionalmente, por quem vive e por quem é capaz de dar a vida.

Como estratégia, o populismo para se alimentar e justificar, procura desacreditar os políticos – representantes do povo nas democracias liberais- e apresenta-se como antissistema personificado por líderes que não se reveem na imagem das elites tradicionais, que falam e pensam ‘fora da caixa’ e que se apresentam como os únicos e verdadeiros representantes do povo.

Agora, há uma diferença entre os líderes populistas de outrora e os atuais. Em tempos passados, os líderes providenciais apresentavam-se com um carisma que lhes conferia uma aura de excecionalidade, lembremos os casos paradigmáticos de Hitler e de Mussolini. Hoje na era digital não se é tão exigente. Em boa verdade, normalmente nem precisam de aparecer, basta ‘twittarem’ e terem excelentes técnicos de comunicação digital para fazer passar as suas mensagens que serão replicadas ad nauseam, aprovadas e endossadas, se for preciso por milhares de perfis falsos, que condicionam os perfis verdadeiros, acolitados pelas fake news consideradas oportunas.

Para alem desta mestria tecnológica há um outro aspeto que não se pode ignorar, como refere Letícia Cesarino em entrevista recente1:

“[com a internet] no lugar dos mediadores tradicionais, da imprensa, dos partidos políticos, da academia, você coloca a proeminência de quem estava na margem, que é o usuário comum, o senso comum, porque é uma tecnologia baseada em conteúdo gerado pelos usuários.”

Quer dizer, através das redes sociais ‘o povo’ - os participantes/usuários - tem a falsa sensação de que é protagonista da cena política e não simples recetor, como acontece nos cenários políticos tradicionais e desse modo, a sua adesão ao líder reveste outro sentido e outra força.

Quanto às aparições físicas públicas do líder serão cuidadosamente encenadas para se obter o efeito desejado pois as pessoas parecem ser cada vez mais sensíveis à imagem e é preciso saber imprimir-lhe um qualquer cunho estético. A boa maneira neoliberal o populismo sabe como vender o produto, sendo neste caso o produto o líder e a sua ‘entourage’.

Por outro lado - não esqueçamos que o meio é mensagem - o modo como as novas tecnologias mimetizam a política vai realçar certos aspetos do discurso em detrimento de outros; assim a racionalidade e a argumentação tenderão a dar lugar às emoções e a formas de expressão mais espetaculares (no bom ou no mau sentido da palavra) porque as pessoas não sentem a presença dos filtros que as mediações tradicionais costumam interpor entre o que se pensa e o que se diz.

As novas tecnologias da comunicação são os novos media e nós – a esquerda tradicional - ainda não nos apercebemos das suas reais implicações. Estes novos media em princípio pela sua estrutura intrínseca favorecem o populismo: são para os políticos populistas uma espécie de “mare nostrum” no qual em minha opinião os políticos que se pretendem progressistas têm de aprender a navegar o mais rápido possível se não querem perder definitivamente a parada.  

Tudo isto para dizer e convencer quem me lê de que é urgente começar-se a pensar a sério em estudar esta media alternativa, perceber como funciona e como pode ser usada, a fim de se veicularem ideias progressistas e libertárias para além do lixo do costume.

1Leticia Cesarino em entrevista à Instituto Humanitas Unisinos, em 19/10/2022


 

O populismo na era digital - um novo fôlego

O populismo é um movimento político que embora tornado possível pela democracia liberal se posiciona contra esta podendo vir a derrubá-la e a instaurar um novo regime de contornos fascistas. Para procurarmos entender este fenómeno, relembremos que os princípios mais acarinhados pela democracia liberal são:

  • A divisão do poder (divisão tripartida dos poderes), uma espécie de estratégia para introduzir equilíbrio na sociedade - a estratégia dos ‘pesos e contrapesos’.
  • A proteção das minorias - às quais reconhece vulnerabilidades a que é justo atender;
  • A aceitação do pluralismo das opiniões – numa ótica de valorização da tolerância;
  • A defesa do princípio da soberania popular –a ideia de que o poder emana do povo.

Tudo princípios no mínimo respeitáveis que não se podem descartar - pensa-se - sem uma boa argumentação. Mas o populismo vai rejeitá-los, e não se vai dar ao trabalho de argumentar, pois pensa, se calhar bem, que não vale a pena. Todavia, destes princípios retém um – o da soberania popular - e vai elaborá-lo de acordo com os seus objetivos, redefinindo-o em termos que o tornam quase irreconhecível. Essa redefinição assume uma vertente processual e uma vertente substantiva:

·         Em termos processuais, pretende que o povo pode dispensar intermediários e entrar em relação direta com um líder que ‘encarna’ os seus anseios e ao qual devota uma fidelidade canina.

·         Em termos substantivos, o povo demite-se de pensar e de discutir a autoridade do líder, já que este aparece revestido da mística de homem providencial que ama incondicionalmente, por quem vive e por quem é capaz de dar a vida.

Como estratégia, o populismo para se alimentar e justificar, procura desacreditar os políticos – representantes do povo nas democracias liberais- e apresenta-se como antissistema personificado por líderes que não se reveem na imagem das elites tradicionais, que falam e pensam ‘fora da caixa’ e que se apresentam como os únicos e verdadeiros representantes do povo.

Agora, há uma diferença entre os líderes populistas de outrora e os atuais. Em tempos passados, os líderes providenciais apresentavam-se com um carisma que lhes conferia uma aura de excecionalidade, lembremos os casos paradigmáticos de Hitler e de Mussolini. Hoje na era digital não se é tão exigente. Em boa verdade, normalmente nem precisam de aparecer, basta ‘twittarem’ e terem excelentes técnicos de comunicação digital para fazer passar as suas mensagens que serão replicadas ad nauseam, aprovadas e endossadas, se for preciso por milhares de perfis falsos, que condicionam os perfis verdadeiros, acolitados pelas fake news consideradas oportunas.

Para alem desta mestria tecnológica há um outro aspeto que não se pode ignorar, como refere Letícia Cesarino em entrevista recente1:

“[com a internet] no lugar dos mediadores tradicionais, da imprensa, dos partidos políticos, da academia, você coloca a proeminência de quem estava na margem, que é o usuário comum, o senso comum, porque é uma tecnologia baseada em conteúdo gerado pelos usuários.”

Quer dizer, através das redes sociais ‘o povo’ - os participantes/usuários - tem a falsa sensação de que é protagonista da cena política e não simples recetor, como acontece nos cenários políticos tradicionais e desse modo, a sua adesão ao líder tem outro sentido e outra força.

Quanto às aparições físicas públicas do líder serão cuidadosamente encenadas para se obter o efeito desejado pois as pessoas parecem ser cada vez mais sensíveis à imagem e é preciso saber imprimir-lhe um qualquer cunho estético. A boa maneira neoliberal o populismo sabe como vender o produto, sendo neste caso o produto o líder e a sua ‘entourage’.

Por outro lado - não esqueçamos que o meio é mensagem - o modo como as novas tecnologias mimetizam a política vai realçar certos aspetos do discurso em detrimento de outros; assim a racionalidade e a argumentação tenderão a dar lugar às emoções e a formas de expressão mais espetaculares (no bom ou no mau sentido da palavra) porque as pessoas não sentem a presença dos filtros que as mediações tradicionais costumam interpor entre o que se pensa e o que se diz.

As novas tecnologias da comunicação são os novos media e nós – a esquerda tradicional - ainda não nos apercebemos das suas reais implicações. Estes novos media em princípio pela sua estrutura intrínseca favorecem o populismo: são para os políticos populistas uma espécie de “mare nostrum” no qual em minha opinião os políticos que se pretendem progressistas têm de aprender a navegar o mais rápido possível se não querem perder definitivamente a parada.  

Tudo isto para dizer e convencer quem me lê de que é urgente começar-se a pensar a sério em estudar esta media alternativa, perceber como funciona e como pode ser usada, a fim de se veicularem ideias progressistas e libertárias para além do lixo do costume.

1Leticia Cesarino em entrevista à Instituto Humanitas Unisinos, em 19/10/2022

Populismo – não podemos ignorar! É importante compreender o fenómeno político designado de populismo porque este é de momento uma ameaça a...